Amados irmãos e irmãs,
Celebramos hoje, com santa solenidade e profunda reverência, a criação cardinalícia de Dom Bento Ratzinger, a quem a Igreja eleva ao Colégio dos Cardeais — sinal de comunhão profunda com o Sucessor de Pedro, sinal também de serviço eminente à Igreja universal. E o Evangelho que a Providência nos propõe neste dia é, com toda certeza, mais que oportuno — é, na verdade, um espelho do que verdadeiramente celebramos.
“Eram os discípulos a caminho, subindo para Jerusalém, e Jesus os precedia.”
Eis a imagem inicial do Evangelho: os discípulos seguem Jesus, que caminha decidido à frente, rumo a Jerusalém — o lugar do sacrifício, da entrega, da humilhação e da cruz. Os discípulos estão “atônitos”, e os que o seguem, “com medo”. Não compreendem ainda a lógica daquele Reino que o Mestre veio instaurar. A subida a Jerusalém não é uma ascensão ao trono do poder humano, mas ao trono da Cruz.
Hoje, Dom Bento, é a vós que a Igreja convida a subir. Não a uma Jerusalém terrena, mas a um novo grau de serviço à Esposa de Cristo. E o caminho não é outro senão o mesmo: o da cruz, o da entrega, o da humildade. Ao serdes constituído Cardeal, sois posto em evidência, sim, mas é para que brilhe a luz de Cristo, não o brilho das honras humanas.
Vede como, no Evangelho, Tiago e João se aproximam de Jesus com um pedido que nos faz corar: “Concede-nos que nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda, na tua glória”. É o desejo de honra, de posição, de destaque. Jesus, com ternura e firmeza, lhes responde: “Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que eu bebo?”. A resposta dos irmãos é audaz: “Podemos”.
E Jesus, com paciência, os forma. Eles, de fato, beberão do cálice: ambos sofrerão perseguições; Tiago será mártir, João será exilado. Mas a glória que ambicionavam não se conquista por mérito, nem se recebe por favoritismo, mas é dom do Pai, reservado “àqueles para quem está preparada”.
“Quem quiser ser o maior entre vós, seja o servo de todos.”
Aqui está o coração do Evangelho e da vocação cardinalícia. A púrpura que o Cardeal veste — esta cor vermelha, que remete ao sangue — é símbolo do martírio, da disposição de derramar a vida em testemunho a Cristo. O título de “Eminentíssimo Senhor” que hoje Dom Bento recebe, não é um privilégio, mas um peso de serviço. Pois, como disse Jesus, “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.
A Igreja não precisa de príncipes do mundo, mas de servidores fiéis. Não busca o brilho dos palácios, mas a luz da verdade. Dom Bento, que o vosso ministério cardinalício seja à imagem desse mesmo espírito: fiel ao Magistério, disponível ao sacrifício, despojado de vaidades. Que vosso coração esteja sempre voltado a Cristo que vos precede no caminho. E que, ao beber do cálice da missão que vos é confiada, possais encontrar n’Ele a força, a alegria e a paz de servir.
E a nós, irmãos e irmãs, cabe acompanhar com oração este novo Cardeal, certos de que sua fidelidade é dom para toda a Igreja. Sigamos todos Jesus, que sobe à Jerusalém, e compreendamos: reinar com Ele é servir. Vencer com Ele é perder a vida neste mundo. Glorificar-se com Ele é carregar a cruz com amor.
Que a Virgem Santíssima, Serva do Senhor e Rainha dos Apóstolos, acompanhe Dom Bento com seu olhar materno, e nos ensine todos a sermos pequenos servos no Reino de Deus.
Amém.
